*Franklin Jorge
Certa vez me furtaram, além de algumas pinturas valiosas de artistas célebres, parte de minha biblioteca, ou seja, os livros que li, reli , alguns em diferentes edições; uma seleção hipercriticamente selecionada e anotada que preservei por uns 35 anos, desde aquela noite em que Antônio Carlos Villaça me sugeriu que escrevesse a história de minhas leituras. Perdi assim, além dos livros, uma adorável e emblemática pintura de Erasmo Costa Andrade, figuras aladas dançando sobre a copa de uma oiticica, que pretendia usar como ilustração da capa em Everness, contendo minhas memórias até os 14 anos, quando fui brutalmente espancado por meu Avô paterno e mantido em cárcere privado por 15 dias, no Ceará-Mirim. Desapareceram também desenhos e pinturas e uma pequena coleção de naïfs pernambucanos e fluminenses, Alcides. Gina Alves Dias, Eurydice Bressane e Sílvia de León Chálreo, além de obras de Calasans Neto, Bernardo Dimenstein, Vasco Prado, Zoravia Bettiol, Navarro, Dorian Gray, Ruth Aklander e o precioso conjunto de obras do catarinense Ernesto Meyer Filho selecionadas pelo Salão Nacional da Argentina, acompanhadas da respectiva documentação.
Voltemos, porém, aos livros e à fracassada História de minhas leituras, sugestão de Villaça que a recebeu, por sua vez, do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, dono da Norquisa e membro do círculo mais elitista do poder econômico e cultural de sua época no Rio de Janeiro. Villaça não escreveu nada a respeito, mas sugeriu-me que o fizesse, ao ler a marginália que escrevi em livro seu que me acompanhou por meus anos na Amazônia. Adquiri-o em Porto Velho, em 1989, na charmosa Livraria da Rose. Refiro-me a O livro de Antônio, continuação de suas “memórias na fronteira da ficção”.
Uma noite, ao visita-lo no PEN Club do Brasil, na Praia do Flamengo, levei esse exemplar para que ele o autografasse. Ao folheá-lo, percebeu o mestre a marginália que urdi em noites de leituras, por onde passei e ele se deteve lendo-o, sofregamente, sem esconder-nos o interesse e a curiosidade que lhe despertara aquela leitura. Ser visto pelos olhares de um leitor devotado às suas letras. Ele confessou ter-se achado, de fato, interessante, visto através de minhas anotações de leitura. Visitei-o na companhia de Wilton Gayo, terapeuta em São Paulo, amigo desde Natal, onde o conheci estudante de Odontologia na UFRN. Anos depois presenteei esse exemplar anotado ao grande e discreto José Nicodemos, villaciano, como eu. O melhor articulista do jornalismo em Mossoró, mestre dos que sabem, como de Aristóteles disse Virgílio.
Ao ouvi-lo, pensei de imediato que não seria tarefa para mim. Tinha já outros projetos em andamento, dos quais não pretendia protelar a continuidade desse processo, por ser a vida curta. Porém com o tempo fui me deixando enamorar por esta sugestão, de transformar em livro as minhas leituras, o que faria, doutra forma, em O escrivão de Chatham e Cinco minutos, escritos à revelia do autor que não desconfiava que os escrevia. Livros ainda inéditos, reúnem ensaios minimalistas sobre autores estrangeiros e brasileiros que de alguma forma despertaram-me a atenção e o engenho.
Foi um furto que valeu como um roubo violento, por constituir uma perda indefensável. Essa sugestão ficou sendo, para mim, meu livro imaginário, gênero ilustre que criado por Poe. Um latrocínio intelectual e emocional com requintes de perversidade, praticado por alguém que havia sido despejado da pensão onde morava.
Nesses últimos anos – o roubo ocorreu em finais dos anos de 1990 – pensei com pesar nessa perda, dos quadros e dos livros que caíram em mãos de sebistas desprovidos de ética que não se deram sequer ao esforço de avisar-me que eu fora roubado. Só o descobri o uns dois ou três anos depois, quando refiz minha casa e desencaixotei tudo. Exceção do embuste, não havia mais quase nada nas caixas que o ladrão enchera de metralha até pouco mais da metade e as cobriu com alguns livros e quadros, para disfarçar seu ato.
Pois bem, com o tempo fui me afeiçoando à ideia de Villaça, talvez, por já não dispor mais dos livros nem de tempo suficiente para, partindo do zero, realizar tal façanha – reler e anotar, mais uma vez, toda uma biblioteca que a memória tornara infinita. Naturalmente a marginália original podia ser contextualizada pela vida do autor e como fui afetado pelos dardos da realidade exterior, segundo as anotações inspiradas pelo momento.
A mim incentivava-me contradizer ou opor-me ao autor, reescrevendo-o ou reiterando uma outra forma que eu intentara fazer parecer somente minha. Talvez às vezes incorresse no pecado venial de querer passar por mais inteligente e atilado do que o autor, ao reescreve-lo, como costuma fazer todo leitor escolado. De longe e subjugado pelo infortúnio desse roubo arrepiante, creio que além de instigar-me intelectualmente, essa proposição de Villaça resultaria, retrospectivamente, em um livro de formação de um escritor que extraiu o melhor de suas leituras. Um livro imaginário, ou seja, que jamais transpus para o papel.
Num tempo em que fui trabalhar na Paraíba, emprestei meu apartamento ao amigo de um amigo que aqui ficara em Natal, ao apaixonar-se por uma “doidinha”, como ele dizia dela; ficara aqui para tentar um emprego e desfrutar de uma dessas paixões de moços que, ao acolhê-lo em minha casa, incentivei. Enquanto esperava por trabalho, foi desalojado do hotel e então lembrou-se de mim, amigo de seu amigo que o apresentara a mim, no lançamento de um filme aqui produzido. Resgatei-lhe as roupas, pagando as diárias atrasadas e ofereci-lhe, em minha ausência, um teto e roupa lavada. Quando tive de entregar o apartamento, ele se ofereceu para arrumar meus livros e quadros, em retribuição, ressaltou, ao bem que lhe fizera.
O cara foi muito artista, como costumam dizer as más línguas. Encheu de metralha e pedaços de madeira cada uma das numerosas caixas de meus pertences, até pouco mais da metade e cobriu-os com três ou quatro camadas de livros. O mesmo fez com os quadros: salvaram-se apenas os meus retratos pintados por vários artistas que conheci no curso da vida. Talvez, em sua malandragem, tenha percebido que vender meus retratos despertaria suspeitas fundadas. Se não os teria perdido também para esse ingrato engolido pelo crime.
Perdi assim, também, a oportunidade de escrever sobre as anotações que fizera à margem de minhas leituras.